Depois do Caribe, da Colômbia e da Venezuela, a chikungunya se dissemina pelo Brasil. O vírus causador da doença é transmitido pelo mesmo mosquito da dengue e os especialistas calculam que o maior número de casos ocorrerá na estação mais quente do ano.
Mônica Tarantino (monica@istoe.com.br)
A febre
chikungunya chegou para ficar. Na semana passada, o Ministério da Saúde
contabilizava 828 casos de transmissão da doença dentro do País do
começo do ano até 25 de outubro. Isso significa que o vírus CHIKV,
causador da enfermidade, começa a se instalar de forma ameaçadora na
vida dos brasileiros. Trata-se de uma doença que seguirá a mesma trilha
da dengue por vários motivos. O primeiro deles é ser transmitida pelos
mosquitos que também disseminam a dengue, o Aedes aegypti e o Aedes
albopictus (restrito às florestas). Por isso, áreas onde houver o maior
número de mosquitos e de casos de dengue – e que não tomaram ainda as
providências já bem conhecidas para eliminar criadouros de mosquito –
estão na iminência de enfrentar um surto de chikungunya de proporções
semelhantes.
Uma das cidades mais atingidas até agora é
Feira de Santana, na Bahia (no Estado, a doença, de nome difícil, está
sendo chamada de “Chico Cunha”). De acordo com o Ministério da Saúde,
havia 371 casos confirmados na cidade até a semana passada e outros 734
casos em análise. A segunda colocada é Oiapoque, no Amapá, onde 330
pessoas contraíram a febre. Lá, agentes de endemias, bombeiros e
Exército somaram esforços na tentativa de retardar a chegada do mosquito
a outras localidades. Uma das medidas é parar veículos na saída da
cidade para borrifá-los com inseticida. Passageiros também são obrigados
a passar repelente.
Especialistas acreditam que o período de
maior transmissão ocorrerá em dezembro, quando começa o verão. “O grande
problema é que neste primeiro momento teremos muitos casos porque todos
são suscetíveis à chikungunya”, explica Eduardo Massad, chefe do
departamento de informática médica da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (USP).
A chikungunya e a dengue produzem sintomas
parecidos. Ambas causam febre alta, manchas vermelhas na pele, fadiga,
náusea, dor de cabeça e pelo corpo. Mas há diferenças importantes. A
chikungunya acomete o indivíduo uma única vez. Depois, ele se torna
imune. A dengue se repete toda vez que a pessoa for infectada por um dos
quatro subtipos do vírus circulantes no País.
Mais: a dengue se parece com uma gripe
forte e traz dores musculares e atrás dos olhos. Já a chikungunya
provoca dores intensas nas articulações que podem sumir em uma semana ou
persistir por cerca de três meses. E há ainda um grupo de pessoas nas
quais as dores articulares se tornam crônicas e podem durar anos.
O tratamento varia em razão dessas
características. “Na dengue há riscos de sangramento e a pessoa deve ser
hidratada rapidamente. No caso da chikungunya, é necessário dar atenção
especial ao alívio da dor”, diz o infectologista José Cerbino Neto,
vice-diretor do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da
Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.
No começo do ano, ele foi enviado à
Martinica e ao Caribe pela Organização Panamericana de Saúde para
observar a epidemia que ocorre por lá. Estima-se cerca de 700 mil casos
na região. Desde que voltou, ele se dedica a ensinar especialistas
brasileiros a diagnosticar a febre. “É fundamental aprender a
identificá-la para dar o atendimento correto”, diz a infectologista e
epidemiologista Maria da Glória Teixeira, da Universidade Federal da
Bahia, que foi a Brasília para um treinamento. Além do diagnóstico pelo
conjunto de sintomas, há testes de sangue disponíveis na rede pública
que identificam a chikungunya de 24 a 48 horas. Na semana passada, a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou um teste rápido, criado
pela empresa OrangeLife, que dá resultados em dez minutos. Para a
médica Maria da Glória, a única forma de reduzir o impacto da nova febre
é recrudescer o combate ao Aedes. “Devemos ficar atentos para eliminar
os criadouros de mosquito”, diz. Uma boa chance de ficar mais atento ao
combate ao Aedes aegypti será o Feriado de Finados, em 2 de novembro. Em
vez de deixar nos cemitérios flores em vasinhos com água, melhor optar
por flores plantadas.
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