Alguns micro-organismos já são usados para tratar infecções e doenças de pele. E pesquisas mostram que eles podem ajudar a controlar a obesidade, a diabetes e até as enfermidades cardíacas
Monique OliveiraUm procedimento a princípio inusitado começa a ser testado como uma opção de tratamento para infecção intestinal e obesidade. Trata-se do transplante de bactérias, cujo objetivo é devolver o equilíbrio à flora intestinal, de forma que os problemas sejam corrigidos. No caso da infecção, a técnica já tem sido adotada em vários países – inclusive no Brasil – para tratar pacientes nos quais outros recursos foram ineficazes. Recentemente, um estudo sobre o método, publicado na revista científica “The New England Journal of Medicine”, mostrou que, enquanto os remédios mais usados contra o problema apenas reduzem a frequência das diarreias decorrentes da infecção, o transplante promove sua cura.
PROTEÇÃO
O uso de probióticos ajuda Thiago a não ter mais crises de
dermatite atópica, doença de pele que causa muita coceira
Baseados em informações como essas, os pesquisadores estão testando a eficácia do transplante para combater a obesidade. Um dos experimentos foi feito na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo. Os cientistas selecionaram as bactérias associadas ao excesso de peso e as transplantaram para cobaias magras. E extraíram os micro-organismos dos animais obesos. Mesmo com quantidade igual de comida, os que eram magros engordaram e os obesos emagreceram. Os pesquisadores também transplantaram bactérias de cobaias obesas para um animal geneticamente protegido da obesidade e, da mesma forma, constatou-se aumento de peso. “O estudo prova que as bactérias possuem uma influência definitiva e específica na obesidade”, explica Mário José Abdalla Saad, diretor da Faculdade de Medicina da Unicamp.
TERAPIA
No transplante de bactérias feito pela equipe de Saad, as cobaias
que receberam bactérias associadas à perda de peso emagreceram
As investigações sobre obesidade e bactérias forneceram evidências de que elas estão também relacionadas à diabetes. “Constatamos a associação com a resistência à insulina”, disse à ISTOÉ Oluf Pedersen, da Universidade de Copenhagen, na Dinamarca, um dos autores do estudo recém-publicado na “Nature”. O cientista se refere ao processo pelo qual o corpo oferece resistência ao funcionamento da insulina, o hormônio que possibilita a entrada nas células da glicose circulante no sangue. Se não entra nas células, a glicose se acumula, originando a diabetes. Na Unicamp, os pesquisadores constataram que mesmo um rato geneticamente modificado para não desenvolver diabetes pode ter a doença caso ele apresente maior presença de determinada bactéria.
Na prática, os bons resultados estão impulsionando a popularização dos probióticos. No Brasil, a Invictus é uma das empresas a disponibilizar um produto com alta quantidade de bactérias, para casos mais graves de constipação. É o lactofos, que promete ser útil também para diarreia e manifestações urogenitais. “Vários hospitais adotaram o produto em caráter experimental, com sucesso”, afirma José Olímpio Mattos, diretor da empresa.
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