Cresce no Brasil a ação de grupos de
profissionais que vão às ruas dar assistência voluntária aos sem-teto,
população com pouco acesso aos serviços de saúde
Cilene Pereira
Timerman: o poder do contato humano
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Jim Whiters: o poder do contato humano
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Alunos limpam ferimento
na perna de sem-teto
A voz era fraca demais para que conseguisse pronunciar seu nome.
Junto com o corpo muito magro, febril e trêmulo, o rapaz jovem sentado
dentro de uma barraca da triagem de pacientes é o retrato do desamparo
de quem mora na rua. Na manhã do domingo 21, ele foi uma das cerca de
cem pessoas sem-teto atendidas em São Paulo pelo projeto Médicos de Rua,
uma iniciativa que ganha corpo no Brasil com a força da solidariedade
de profissionais de saúde que dedicam voluntariamente tempo e material
para prestar assistência a essa população. Mais três barracas e uma
ambulância completavam a estrutura montada em frente ao Pátio do
Colégio, no centro da capital paulista. O exame clínico, aliado às
poucas informações que o rapaz consegue transmitir sobre si mesmo, leva à
conclusão de que o jovem tem pneumonia. Ele é medicado com antibiótico e
ganha um tempo para descansar na maca. Não fala nada. Apenas firma os
olhos nos olhos da estudante de medicina que o atende. Por alguns
segundos, parece sentir-se conectado com sua humanidade novamente. O
olhar, até então só de solidão, manifesta gratidão.
O projeto foi trazido ao Brasil em 2015 pelo neurologista Mário
Vicente Guimarães, professor da Faculdade de Medicina da
Anhembi-Morumbi, de São Paulo, instituição integrante da Rede Laureate.
Mário trouxe a ideia depois de conhecer o trabalho do médico americano
Jim Withers, o grande inspirador do que hoje se chama medicina de rua.
Desde 1992, ele faz o atendimento da população sem-teto. Começou nas
ruas de Pittsburgh e hoje ajuda a coordenar uma organização dedicada à
prática que já atua em 85 cidades de 15 países. Jim estava na ação
realizada em São Paulo na semana passada. Mesmo sem falar português,
anda por entre as barracas e conecta-se com os pacientes com extrema
facilidade. Abre um sorriso para cada um que se aproxima, escuta, mas
não entende, claro, o que não o impede de terminar o breve encontro com
um abraço. “Quando você vê a força de um abraço para que alguém
reencontre sua humanidade, nunca mais enxerga o cuidado com o outro do
mesmo jeito”, diz.
Quando começou, Jim vestia-se como um sem-teto. Achava que seria mais
fácil ser aceito. O brasileiro Mário também iniciou sozinho a ação em
São Paulo. Pouco a pouco, ganhou a ajuda de estudantes, fez parceria com
a Pastoral da Rua, da Igreja Católica, e viu o movimento crescer. Em
2017, a enfermeira Elaine Peixoto, coordenadora Clínica do Centro
Integrado de Saúde da instituição, aderiu. Hoje, todo último domingo do
mês, alunos de medicina, de farmácia, de enfermagem e de outras áreas
juntam-se a seus mestres para socorrer quem não tem acesso a qualquer
serviço de saúde. “Muitos se sentem intimidados em procurar auxílio”,
conta Elaine.
Doenças infecciosas, respiratórias e lesões resultantes de brigas ou
de feridas no pé pelo simples fato de a pessoa não ter um sapato estão
entre os casos mais comuns. Em meio a tanta precariedade, a assistência
às vezes sai da esfera médica para a judicial (auxílio para obter
documentos, por exemplo, com ajuda de advogados) ou abrange o paciente e
seus animais. O trabalho com os bichos é feito por veterinários para
tratar doenças que façam mal aos animais e aos humanos. “O que vemos
aqui é a prática da verdadeira medicina humanizada”, diz o cardiologista
Sergio Timerman, decano do curso de Medicina da Anhembi-Morumbi, que
também estava na ação do domingo. O neurologista Mário e a enfermeira
Elaine receberam o Prêmio Here for Good 2018 na categoria
docentes/colaboradores, oferecido pela Laureate. Ações semelhantes estão
sendo realizadas em outras cidades, todas com participação voluntária e
bancadas muitas vezes com ajuda do dinheiro do próprio bolso dos
participantes ou de doações. Trata-se de uma demanda sem fim em um país
onde 52 milhões de pessoas estão abaixo da linha de pobreza. Olhar
jovens e professores envolvidos na iniciativa com tanto entusiasmo dá
esperança de que pelo menos parte desses pobres brasileiros seja olhada e
tratada como o que são: seres humanos e cidadãos como todos nós.
Doenças infecciosas, respiratórias e mentais estão
entre as principais enfermidades apresentadas
Existe a
suspeita de que o protetor solar seja um dos causadores da alopecia
frontal fibrosante – um tipo de calvície. Investigamos essa história
Por
Maria Tereza Santos
Estudos sugerem uma associação entre o protetor solar e queda de cabelo (Foto: Victor Almeida/SAÚDE é Vital)
Entre os diversos tipos de queda de cabelo,
existe a alopecia frontal fibrosante, uma doença que acomete a parte da
frente do couro cabeludo, dando a impressão de que a testa está
crescendo. E há uma enorme discussão entre os dermatologistas sobre ela,
porque a verdade é: não se sabe a sua causa. Agora, uma das suspeitas
recai sobre o protetor solar. Será que ele tem culpa no cartório?
Antes de mais nada, precisamos entender o que é a tal da alopecia
frontal fibrosante. “Trata-se de um processo inflamatório, lento e
assintomático que destrói a raiz do cabelo, acometendo a borda anterior
do couro cabeludo”, explica a dermatologista Aline Donati, que atende na
clínica DermaHair, em São Paulo. Mas veja que curioso: apenas 15% dos pacientes têm sintomas.
A médica conta que essa é uma doença descoberta recentemente. Ela foi
descrita pela primeira vez em 1994, na Austrália. Até hoje, as mulheres são bem mais acometidas, especialmente depois da menopausa. “Só que estamos percebendo que cada vez mais jovens vêm ao consultório com essa queixa”, aponta Aline.
Pois é: ainda há muito mistério com relação à alopecia frontal
fibrosante. E o filtro solar não foge à regra, como você verá agora.
A relação entre o protetor solar e a calvície
Em 2016, pesquisadores do Hospital Royal Hallamshire, na Inglaterra, publicaram um estudo no periódico British Journal of Dermatology, no qual se concluiu que talvez haja uma associação entre a doença e o protetor solar.
Os cientistas criaram um questionário sobre hábitos que foi
respondido por 105 mulheres com alopecia frontal fibrosante. Um grupo de
controle formado por 100 homens
e mulheres de diferentes idades também passou pelo teste. Com os
resultados em mãos, eles observaram que o uso de filtro solar pela turma
com o problema era significativamente maior.
Há ainda outro fato que fortalece essa hipótese. Como foi dito no
início do texto, a alopecia frontal fibrosante foi diagnosticada pela
primeira vez na Austrália. Coincidência ou não, esses primeiros
episódios surgiram numa época em que a população australiana passou a
aplicar mais protetor devido a uma intensa campanha contra o câncer de pele feita pelo governo.
De acordo com Aline Donati, uma das características da doença que
corrobora a teoria é o fato de que, além da cabeleira, ela atinge os
pelos das sobrancelhas, das pernas e dos braços. Porém, as axilas e a
virilha, áreas em que normalmente não se passa cremes, permanecem
intactas.
Outro trabalho feito por várias universidades sul africanas, publicado em 2013, mostrou que, em 35% das 20 voluntárias negras com alopecia frontal fibrosante, surgiram manchas na pele que ardiam e coçavam antes da queda dos fios se tornar evidente.
Aline explica que, na pele negra, a probabilidade de identificar anormalidade em estágios precoces é maior, pois a derme mancha com facilidade. Já na cútis branca, pode ser confundida com outros problemas, como a rosácea.
Acontece que, nas duas situações, as mulheres começam a usar protetor
com mais frequência justamente para evitar essas chateações.
“Fica a dúvida: será que o filtro solar provoca a doença ou, na
verdade, quando ela surge na pele, a pessoa passa a aplicar o produto na
tentativa de controlar os danos?”, questiona a dermatologista. Se esse
segundo cenário for verdadeiro, o cosmético estaria sendo injustamente
acusado.
Para complicar ainda mais o enredo, aquele estudo inglês também fez
testes para tentar descobrir qual substância do protetor deflagraria a
queda dos fios. Mas os resultados não deram em nada. “Se existe uma
relação de causa e efeito, a gente não sabe qual é o componente por trás
dela”, informa Aline.
Resumindo: a causa da alopecia frontal fibrosante ainda é
desconhecida. Portanto, o medo de desenvolvê-la não deve ser motivo para
deixar de usar protetor solar, ainda considerado a melhor maneira de se proteger do excesso de raios ultravioleta.
O importante é, ao notar uma perda acentuada de cabelo, conversar com o dermatologista quanto antes.
Como é feito o diagnóstico e o tratamento
O ideal é descobrir a doença nos estágios iniciais. “Os
dermatologistas precisam ficar mais atentos às mulheres que vão ao
consultório por problemas na pele, como manchas vermelhas e bolinhas”,
orienta Aline.
O instrumento clínico utilizado para fazer essa verificação é o
dermatoscópio (uma espécie de lupa de aumento para analisar toda a borda
do couro cabeludo). “Observamos se houve a perda da penugem, que são
pelos bem fininhos no rosto. Se tiver ocorrido, pedimos uma biópsia para
confirmar o diagnóstico”, arremata a especialista.
Infelizmente, não há cura nem forma de prevenção conhecida. Mas
existem tratamentos. Eles consistem em impedir que a calvície continue
avançando, já que não há como recuperar os fios caídos.
Podem ser indicados anti-inflamatórios, tratamento hormonal
(acredita-se que a doença possa estar ligada a uma alteração nos
hormônios por atingir mulheres em sua grande maioria) e produtos
retinóides devido às manchas. “Cremes tópicos vão ser adicionados se a
pessoa sentir ardor, coceira ou odor”, acrescenta Aline.
As próteses – similares à perucas, mas que cobrem apenas uma parte da
cabeça – são uma opção para amenizar a situação. “Atualmente, não há
motivo para usar o transplante capilar. Nos testes realizados, o pelo transplantado inflama e cai”, completa.
Vacina
desenvolvida especificamente para proteger pessoas com mais de 65 anos
contra o vírus influenza acaba de ser aprovada pela Anvisa
Por
Maria Tereza Santos
Uma farmacêutica desenvolveu uma vacina para proteger idosos da gripe (Foto: Getty Images/Getty Images)
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma vacina contra a gripe feita especialmente para idosos. Testes realizados pela farmacêutica Sanofi Pasteur indicam
que, entre indivíduos com mais de 65 anos, o imunizante é 24,2% mais
eficaz na prevenção da doença em comparação com a injeção usada
atualmente no Brasil.
Mas o que essa nova arma tem de diferente? Para compreender isso, antes é necessário relembrar o funcionamento das vacinas.
No caso da gripe, os imunizantes são compostos por fragmentos inativados do vírus
influenza (os antígenos). Esses pedacinhos de vírus morto, assim por
dizer, não provocam a doença, mas estimulam o organismo a produzir
anticorpos. Então, quando a pessoa de fato entra em contato com o agente
infeccioso no ambiente, seu sistema de defesa já está pronto para um
contra-ataque imediato.
A questão é que o corpo dos indivíduos mais velhos responde menos à
vacina tradicional. Dito de outra forma, há uma maior probabilidade de a
injeção não incitar a fabricação de anticorpos. Isso torna essa turma
mais vulnerável à gripe e a eventuais complicações, como a pneumonia.
Para contornar tal limitação, pesquisadores desenvolveram uma vacina
com quatro vezes mais antígenos do que a disponível hoje na rede
pública. É um empurrão a mais para promover uma reação imunológica
adequada no pessoal mais maduro.
“O Brasil tem uma população idosa
crescente que precisa se proteger contra a gripe. O cuidado com esse
grupo, especialmente para influenza, é uma necessidade notada há algum
tempo e agora muitos serão beneficiados”, afirma o diretor geral da
Sanofi Pasteur, Hubert Guarino, em comunicado à imprensa.
Apesar da aprovação, ainda não há previsão para a venda desse produto
no nosso país. Num primeiro momento, ele estará disponível apenas nas
clínicas particulares. Seu preço ainda não foi definido pelos órgãos
reguladores.
O curioso é que essa mesma vacina já havia sido lançada nos Estados
Unidos em 2010. Segundo a empresa, mais de 67 milhões de idosos foram
protegidos com ela desde então.
E um recado final: a vacinação é a maneira mais efetiva de combater a gripe. De acordo com informações do Ministério da Saúde, ela reduz de 39% a 75% a mortalidade por problemas provocados pelo vírus influenza na população em geral.
Conheça o
remédio que pode mudar o jeito de tratar essa síndrome rara. E quais
suas causas, seus sintomas e os métodos de diagnóstico
Por
Theo Ruprecht
O primeiro tratamento à base de
comprimidos para a doença de Gaucher foi lançado agora no Brasil (Foto:
Deborah Maxx/SAÚDE é Vital)
Em 1994, o tratamento da doença de Gaucher
passou por uma revolução, com uma injeção que repõe a enzima
beta-glicosidase – ela mal é produzida por esses pacientes. E, agora,
está chegando ao Brasil o primeiro remédio de uso oral contra essa síndrome rara, o que garante conforto e praticidade.
Nos estudos que garantiram sua aprovação, o novo tratamento, da
farmacêutica Sanofi Genzyme, obteve uma eficácia parecida com as
injeções. Só que os comprimidos foram considerados mais amigáveis pela
enorme maioria dos voluntários.
Antes de esmiuçar o novo tratamento, no entanto, é necessário
entender a doença. Quais suas causas e seus sintomas? E o diagnóstico,
como fica?
O que é a doença de Gaucher?
Trata-se de uma desordem genética que provoca uma deficiência na produção da enzima beta-glicosidase.
A substância é responsável por, dentro de estruturas celulares chamadas
lisossomos, quebrar algumas moléculas para que elas sejam recicladas.
Pois bem: na ausência dessa enzima, há um acúmulo de uma partícula
chamada glicosilceramida (ou GL1 para os mais íntimos). É uma espécie de
lixo que, digamos, incha certas células do sangue – os macrófagos.
Nesse estado, eles perdem sua função, ganhando o apelido de células de
Gaucher.
Essas unidades, por sua vez, acabam se acumulando em locais como o fígado, o baço e a medula óssea. Daí disparam os sintomas que veremos logo na sequência.
“No Brasil, temos quase 900 pacientes diagnosticados. Mas é possível
que outras pessoas sofram com ela, porque a detecção de uma doença rara
nunca é fácil. Os sintomas não são conhecidos ou associados ao
problema”, afirma a pediatra Ana Maria Martins, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Sintomas e consequências
O acúmulo das células de Gaucher aumenta em duas vezes o tamanho do
fígado e em até incríveis 70 vezes o do baço. “Uma criança que atendi
parecia ter uma barriga de grávida”, exemplifica Ana Maria.
Claro que nem todos os casos provocam um inchaço tão acentuado, mas,
de fato, a barriga costuma crescer bastante. E, sim, esse e outros
sinais já tendem a dar as caras na infância, embora possam aparecer somente na fase adulta.
O comprometimento do baço, aliado à alta concentração de células de
Gaucher na medula óssea, também abala a produção de sangue. “Como
consequência, o paciente desenvolve anemia e fica cansado”, explica a médica.
Sangramento pelo nariz e manchas roxas na pele também podem afetar os enfermos.
Para piorar, a síndrome vai enfraquecendo os ossos. Com o tempo e sem tratamento, surge a osteoporose
e as consequentes fraturas graves. O indivíduo ainda corre o risco de
padecer com as crises ósseas, que são acessos de dor extrema no
esqueleto.
Diagnóstico
Quando o médico desconfia da doença de Gaucher por causa dos
sintomas, a confirmação é relativamente simples. “Medimos a concentração
da enzima beta-glicosidase com exames de sangue. Se ela estiver em
falta, está feito o diagnóstico”, esclarece Ana Martins.
O problema é justamente suspeitar do quadro. Em um país como o nosso,
muitas vezes o inchaço na barriga da doença de Gaucher é confundido com
um caso de esquistossomose (barriga d’água), por exemplo.
Não à toa, mesmo que os sintomas tenham aparecido nos primeiros anos
de vida, a descoberta de que estamos diante desse problema raro ocorre
frequentemente na fase adulta.
O tratamento
Antes da década 1990, os médicos basicamente tentavam controlar os
sintomas e as consequências da doença de Gaucher. “Como o baço inchava
muito, a opção era removê-lo. Isso reduzia a anemia, mas, por outro
lado, acelerava a degeneração dos ossos”, lembra Ana Maria.
Em resumo, a doença avançava sem qualquer freio. “Com isso, a
longevidade era bem reduzida e a qualidade de vida, abalada”, diz Ana
Maria.
Em 1994, surgiram as injeções de reposição enzimática. Ao entrar no
organismo, o remédio limpa aquele acúmulo de GL1 das células e dos
órgãos acometidos. Resultado: a barriga desinfla aos poucos e a doença
de Gaucher praticamente para de agredir o organismo.
“Foi uma revolução”, crava Ana Maria. “O inconveniente: as injeções,
quinzenais, precisam ser tomadas no hospital, o que atrapalha o dia a
dia”, pondera.
Esse talvez seja o grande benefício do novo remédio, um comprimido
com a substância hemitartarato de eliglustate e que acaba de ser lançado
por aqui. Tomado duas vezes ao dia, ele simplifica bastante o
tratamento.
“Só é importante que o paciente não deixe de ingerir o medicamento
adequadamente. A adesão é fundamental”, avisa Ana Maria, que participou
dos estudos com o fármaco.
Aliás, foi mostrado que 85% dos indivíduos que receberam o hemitartarato de eliglustate permaneceram estáveis ao longo dos quatro anos de uma pesquisa.
Esse remédio basicamente diminui a produção daquele lixo celular que
entope os macrófagos. Hoje, ele está autorizado para pacientes com mais
de 18 anos. “Levantamentos com crianças devem ser conduzidos no futuro”,
diz Ana Maria.
Além disso, ele é voltado especificamente para o tipo 1 de doença de Gaucher. Essa versão representa acima de 90% dos casos e bate com tudo o que já mencionamos antes.
O tipo 2, mais grave, praticamente acaba com a produção da enzima
beta-glicosidase. Os remédios atuais não funcionam, há um grave
comprometimento cognitivo e, infelizmente, as crianças costumam morrer
antes dos 2 anos de idade. Ele responde por até 2% dos episódios de
Gaucher.
Já o tipo 3 também é marcado por um déficit cognitivo, embora
geralmente mais leve. Esse estrago não é contido. Por outro lado, os
danos ao baço, fígado e afins podem ser controlados com as injeções de
reposição enzimática. O tipo 3 soma mais ou menos 5% dos casos.
O acesso ao novo remédio
Essa é sempre uma questão com novos remédios de alto custo para
doenças raras. Embora o hemitartarato de eliglustate esteja liberado por
aqui, não há ainda um protocolo definido de seu uso.
Em outras palavras, hoje cabe ao paciente e ao médico pressionarem os
sistemas público e privado, caso desejem o comprimido. Paralelamente, a
Sanofi Genzyme já iniciou conversas para ver como cooperar nesse
sentido, segundo a assessoria de comunicação.
Esse
problema no olho, que atinge principalmente a população jovem, precisa
ser tratado quanto antes. Descubra o que ele provoca e quais os sinais
na visão
Por
Maria Tereza Santos
Doença que afeta a córnea aparece normalmente na infância e adolescência (Ilustração: Thiago Almeida/SAÚDE é Vital)
Ao contrário de muitas doenças oftalmológicas, o ceratocone costuma surgir na infância, na adolescência
ou no princípio da vida adulta. É um problema hereditário que afeta de 1
a 2% dos brasileiros nessa faixa etária. Ele atinge a córnea, tornando a
visão embaçada e irregular – a boa notícia é que, nos últimos anos, o
tratamento melhorou bastante, como mostraremos mais pra frente.
“O ceratocone causa sintomas justamente na fase da escola, do
vestibular e dos primeiros empregos. É o momento da vida em que a visão é
importantíssima”, aponta a oftalmologista do setor de cirurgia
refrativa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Marta Sartori.
Esse problema é bilateral e assimétrico, o que significa que pode
deturpar a visão nos dois olhos, mas não da mesma maneira. Ele também é
progressivo – ou seja, vai piorando com o tempo, se nada for feito. “A
doença deteriora ao ponto de a pessoa enxergar tudo distorcido, mesmo com óculos”, afirma Marta, que também é membro da Associação Brasileira de Catarata e Cirurgia Refrativa (ABCCR-BRASCRS).
Ao suspeitar desse – e de outros problemas de visão –, não deixe de
visitar o oftalmologista para se submeter aos exames adequados.
A causa do ceratocone
Para entender essa doença, é preciso antes aprender sobre o
funcionamento da córnea, a nossa “lente natural”. Marta Sartori explica
que essa estrutura tem o formato similar a uma calota de carro.
“Ela é responsável pela refração, que é a mudança de direção da luz
quando entra no olho. A partir daí, o raio de luz passa por outras
estruturas do globo ocular até chegar na retina”, completa a
oftalmologista. Dali, o nervo óptico leva essa informação ao cérebro, onde será processada e finalmente convertida em uma imagem.
Porém, no ceratocone é como se a córnea ficasse pontuda e adotasse
mais a forma de um cone. Essa alteração distorce a entrada de luz, o que
provoca uma confusão de imagens. Mal comparando, a impressão visual é
de um astigmatismo, só que mais irregular.
Por que isso ocorre? Difícil dizer. Sabe-se que cerca de 1% a 5% da
população geral possui defeitos em um gene que abrem as portas para o
ceratocone. Ainda assim, nem todas as pessoas com essa falha no DNA vão
ter a doença, até porque o surgimento do ceratocone também depende de
estímulos externos, como a coceira frequente dos olhos ou o ato de
apertá-los.
Esses hábitos, em resumo, danificam a córnea. “Usando a calota do
carro como paralelo, é como se ela tivesse levado um chute”, exemplifica
Marta.
Sinais para ficar de olho
Se já houver algum caso de ceratocone na família, converse com o
oftalmologista para minimizar o risco da doença nos descendentes.
“Ela aparece em homens e mulheres na mesma frequência. É mais comum no final da infância e na adolescência. Coceira nos olhos, asma e rinite são fatores de risco, por estimularem danos na córnea”, informa Marta.
Nesse sentido, é preciso levar a coceira a sério. “Muitas crianças
acabam se viciando. Os pais precisam levar seus filhos ao oftalmologista
para identificar sua origem e tratá-la, se for o caso”, complementa.
Para interromper esse costume, os médicos podem indicar colírios. Ou
mesmo receitar medicamentos orais mais fortes, como cortisona.
Para quem é alérgico, vale o recado de sempre: evite ficar em ambientes empoeirados, com ácaro ou que tenham carpetes, tapetes, animais de estimação e bichos de pelúcia. Se isso fizer você coçar os olhos demais, pode desencadear o ceratocone.
Como é o tratamento
Há alguns anos, a única maneira de amenizar os sintomas era usando
óculos. Quando o instrumento não dava mais conta do recado,
fabricavam-se lentes especiais removíveis, que deveriam ser trocadas
sempre que o ceratocone piorasse.
“Mas de 20 anos para cá, houve uma grande progressão de tratamentos. O
que temos disponível hoje é muito mais moderno”, afirma a
oftalmologista. Embora eles ainda não ofereçam uma cura, conseguem
controlar bem os sintomas e restabelecer a visão. Conheça os dois
principais: Implante do anel intracorneano: por meio de uma
cirurgia, cava-se um túnel no meio da córnea, onde é colocado uma
prótese feita de acrílico que regula a curvatura dessa estrutura.
“A prótese não deteriora a córnea. Ela apenas muda sua curvatura”,
pondera Marta. O implante é reversível e ajustável. Após uma semana,
você retorna aos afazeres do dia a dia. Crosslinking: “Nesse tratamento, promovemos uma ligação mais firme entre as fibras de colágeno
da córnea. É como se a gente estivesse cimentando a região para
torná-la mais dura, fazendo com que o ceratocone não progrida”,
esclarece Marta.
Aqui, depois de uma raspagem cirúrgica da córnea, os médicos pingam
um colírio de vitamina B no olho. O composto funciona como um oxidante.
“Usamos junto um raio de luz ultravioleta, que excita essa vitamina,
tornando a córnea mais rígida”, completa a expert. O paciente é liberado
para voltar às suas atividades de dois a três dias depois. Esse
procedimento inclusive está disponível na rede pública de saúde.
Recado importante: quem analisa a severidade do ceratocone e indica o
tratamento mais adequado é o oftalmologista. Às vezes, ele vai combinar
as duas técnicas.
Além disso, mesmo após os procedimentos, talvez seja necessário continuar usando lente ou óculos. Mas, claro, sem precisar trocar o grau toda hora.
Em fases mais avançadas da doença, quando ela deixa de responder a outras terapias, a saída pode ser o transplante de córnea.
“O pós-operatório dessa cirurgia é demorado. O paciente não fica
internado, mas tem que voltar ao hospital a cada 15 dias para retirar os
pontos. Nessa fase da vida, pode atrapalhar”, alerta Marta.
Por isso, não deixe de ir ao médico assim que os primeiros sinais surgirem. Fonte: Marta Sartori, oftalmologista do setor de cirurgia
refrativa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Coordenadora
da residência de oftalmologia do serviço municipal de Diadema e membro
da Associação Brasileira de Catarata e Cirurgia Refrativa
(ABCCR-BRASCRS).
O mais importante prêmio da medicina
homenageia os dois cientistas que criaram as bases da imunoterapia, hoje
a forma mais eficaz de combate ao câncer
James Allison trabalha na Universidade do Texas, nos EUA. Tasuku
Honjo, na Universidade de Kyoto, no Japão. Na segunda-feira 1, os dois
receberam os telefonemas que mudaram suas vidas e seu papel na ciência.
Eram os representantes do Instituto Karolinska, na Suécia, comunicando a
ambos que eles haviam ganhado o Prêmio Nobel de Medicina de 2018. É a
homenagem mais importante do mundo científico e o mérito de Allison e
Honjo de recebê-la é inquestionável. Seus estudos deram a base da
imunoterapia, a forma mais eficaz de combater e de curar diversos tipos
de câncer hoje. SAM YEH/AFP PHOTO
O tratamento consiste na intervenção no sistema de defesa para que
ele destrua as células tumorais. O desenvolvimento do tumor significa
que a doença enganou o sistema imunológico. “Os cientistas descobriram
que as células de defesa possuem proteínas que servem como freios para
limitar sua atuação, necessários para que elas não fiquem super ativadas
e não causem doenças autoimunes”, explica o oncologista Milton Barros e
Silva, do A. C. Camargo Cancer Center. Porém, as células tumorais usam
esses freios e escapam do ataque do sistema imune. “Os premiados
trouxeram o conhecimento básico que permitiu a criação de uma forma de
fazer com que as células tumorais não desliguem as células de defesa.”
Hoje, dezenas de medicações agem com esse objetivo. “Eles são empregados
nas fases avançadas, já sendo o principal tratamento em alguns tumores,
com pacientes conseguindo controle a longo prazo, possivelmente até
curados”, explica o oncologista. Entre os esforços atuais, está o de
fazer com que a imunoterapia sirva para uma gama mais extensa de
tumores. “Nós podemos curar o câncer com isso”, afirmou Klas Karre,
integrante do comitê do Nobel. C.P.
A Associação de Consumidores divulgou nova análise com mais de 60 versões do óleo de oliva - e há boas e más notícias
Por
Da Redação
Algumas marcas foram consideradas fraudadas pela Proteste (Foto: Bruno Marçal/SAÚDE é Vital)
A Proteste, Associação de Consumidores, divulgou os resultados de uma nova avaliação feita com azeites de oliva
ditos extravirgens. No total, 69 marcas foram submetidas ao pente-fino.
O diferencial desse teste, segundo a entidade, é que ele contou com
mais amostras. Além disso, incluiu azeites brasileiros, já que a
produção nacional está em ascensão.
Das 69 marcas avaliadas, sete foram consideradas fraudadas.
É que, embora a embalagem dissesse que se tratava do tipo extravirgem, a
Proteste identificou, em laboratório, vestígios da adição de outros
óleos vegetais na embalagem – o que não poderia acontecer. As marcas
são: Barcelona, Porto Valência, Casalberto, Olivenza, Faisão, Borgel e
Do Chefe. As duas últimas já tinham sido reprovadas em testes anteriores
pela mesma razão.
De acordo com a Proteste, o azeite das marcas Do Chefe, Barcelona e
Olivenza não são envasados no local de produção. Quando o óleo vai para a
garrafa logo após sua extração, há menor risco de ele oxidar e também
de ser misturado a outras substâncias.
Na avaliação sensorial, mais problemas. A maioria das marcas
desclassificadas foi considerada lampante. Isso significa que o produto
veio de azeitonas deterioradas ou fermentadas – por esse motivo, nem
deveria chegar ao mercado. Para ser comercializado, o certo seria
refiná-lo para retirar as impurezas e misturá-lo com azeite. A exceção
ficou por conta da marca Barcelona, definida como virgem pelo teste.
A Proteste ainda considerou certas marcas como “fora do tipo”. La
Pastina, Vilaflor, Prezunic, Great Value, Obra Prima, Estoril, Paesano,
Camponês e Bom dia deveriam ganhar a classificação de virgem, enquanto o
azeite Casa Medeiros merecia ser reconhecido como lampante.
Também dá para comemorar
Além do “Melhor do Teste” (o azeite Prosperato Premium), há outros
três produtos brasileiros entre os dez primeiros colocados da avaliação.
Isso confirma a qualidade dos azeites nacionais. Veja a lista clicando aqui.
As marcas analisadas
A lista completa é essa: Allegro, Andaluzia, Andorinha, Báltico
(Broto Legal), Barcelona, Batalha, Bom dia, Borgel, Borges, Borges
Sybaris, Borriello, Camponês, Carbonell, Cardeal, Carrefour, Casa
Medeiros, Casalberto, Cocineiro, Deleyda, Delfos, Do Chefe, Don
Giovanni, EA, Estoril, Faisão Real, Filippo Berio, Gallo, Gallo Grande
Escolha, Great Value, Herdade do Esporão, La Española, La Pastina, La
Violetera, Maria, Menoyo, Monde, Mondegão, Mytholio, Nova Oliva, Obra
Prima, Olitália, Olivas do Sul, O-live, Oliveira Ramos, Oliveiras do
Seival, Olivenza, Ouro de Santana, Paesano, Paganini, Parus, Porto
Valência, Portucale, Prezunic, Prosperato, Qualitá, Raniere, Renata,
Rey, Santa Maria, Santiago, Serrata, Star, TAEQ, Terrano, Toureiro,
Tradição Brasileira, Verde Louro, Vila Flor e ZOH.
No que ficar de olho para identificar um produto de qualidade
Data de produção: dê preferência aos mais novos. É que, com o tempo, os polifenóis do azeite vão se perdendo. Local de envase: o desejável é que tenha sido embalado no país de origem. Isso reduz o risco de fraudes, como inclusão de outros óleos. Ingredientes: na lista, deve constar apenas “azeite de oliva extravirgem”. Afinal, o produto nada mais é do que o sumo da azeitona. Preço: evite marcas baratas: é indicativo de misturas. E ninguém merece pagar 10 reais em óleo comum. Tipo de recipiente: escolha garrafas escuras e do fundo da prateleira. Sinal de que os polifenóis estão mais blindados. Letras miúdas: ao ler “tempero português” ou “tempero espanhol”, significa que é mistura, e não azeite puro.
Esse exame, mais barato e eficaz do que os métodos disponíveis, pode aumentar as chances de cura desse tipo de tumor
Por
Flávia Albuquerque (Agência Brasil)
O câncer de pâncreas tende a ser diagnosticado em fases avançadas (Ilustração: Sattu/SAÚDE é Vital)
Pesquisadores do Instituto de Física de São
Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), em parceria com o
Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano) do Hospital de Câncer de
Barretos e com a Universidade do Minho, de Portugal, criaram um
biossensor capaz de diagnosticar precocemente o câncer de pâncreas. Esse é um tipo de tumor menos comum no Brasil, porém altamente letal por ter sintomas que demoram para aparecer. Quando os sinais dão as caras, a doença geralmente já atingiu um estágio avançado, tornando o tratamento mais difícil.
Segundo informações da Fapesp, que apoia o projeto,
os cientistas construíram um dispositivo que consegue identificar
moléculas que, quando em excesso no corpo, acusam essa doença com alta
sensibilidade e seletividade. O nome dessa partícula é CA19-9.
“Conseguimos fazer um biossensor de baixo custo que demonstrou ser capaz
de detectar o biomarcador do câncer de pâncreas em amostras reais de
sangue e de células tumorais”, diz Osvaldo Novais de Oliveira Junior,
professor do IFSC-USP envolvido no projeto.
O dispositivo é formado por duas lâminas minúsculas, que reconhecem o
antígeno CA19-9. “Mas o antígeno CA19-9 não é completamente específico
para o câncer de pâncreas. Pacientes com pancreatite (inflamação do pâncreas) também podem apresentar alteração na produção dessa proteína”, pondera Oliveira Junior.
Atualmente, a detecção do CA19-9 é feita por meio do teste Elisa, um exame
de sangue de alto custo e sensibilidade limitada, sendo pouco útil para
detectar câncer de pâncreas em estágio inicial. Nesse sentido, o novo
método seria mais eficaz e barato.
Segundo o pesquisador Oliveira Junior, os resultados dos testes
mostram que já é possível utilizar o biossensor na prática. Mas há dois
desafios: um é produzir os dispositivos em larga escala com os mesmos
resultados. E o segundo envolve analisar os dados gerados pelo novo
exame para estabelecer os padrões de diagnóstico. “Esse trabalho exigirá
pesquisas com a participação de cientistas da computação”, conclui.
Este conteúdo originalmente veio da Agência Brasil.
De uma simples visita de férias à terra natal, em julho, os cearenses
Karyne e Handerson Castro não esperavam muito além do normal. Em
Aquiraz, compraram um arabaiana, também conhecido como olho-de-boi,
peixe que estavam acostumados a comer. A iguaria custou, porém, mais
caro que o valor pago na venda: após consumir a carne, o casal foi
diagnosticado com síndrome de Haff, conhecida como a "doença do xixi
preto".
"Nós moramos em São Paulo, trouxemos o peixe congelado pra cá, inteiro.
A gente comeu numa quarta-feira e aí sentimos muita dor no corpo, uma
indisposição muito grande, mas a gente nunca imaginou que fosse o
peixe", relata Karyne, de 39 anos.
A advogada conta que, no domingo seguinte, sua sogra preparou a outra
parte do peixe para o almoço. Seis horas depois, Karyne, seu marido e
sua sogra começaram a sentir fortes dores, e então foram até o Hospital
Israelita Albert Einstein.
A princípio, a suspeita dos médicos era de que fossem casos de H1N1. O
trio, contudo, não apresentava febre. "Quando fomos fazer xixi, a urina
estava escura, aí eles investigaram e deram o diagnóstico. Passamos uma
semana internados", lembra.
Também denominada Mialgia Aguda a esclarecer, a síndrome de Haff tem
origem desconhecida, mas suspeita-se que seja causada por uma toxina
relacionada ao consumo de frutos do mar. "Como a condição é rara, ainda
não foi identificada qual é essa toxina, e nem todas as pessoas que
comem o determinado peixe desenvolvem os sintomas", explica Guilherme
Henn, presidente da Sociedade Cearense de Infectologia.
A característica mais marcante da doença, porém, é uma mudança na
tonalidade da urina, que varia entre vermelho escuro e castanho.
Em 2017, a Sesa registrou 10 casos confirmados da Mialgia Aguda a
esclarecer. Já em 2018, até a manhã da última quinta-feira (4), nenhum
caso havia sido notificado no Ceará.
Em nota, a Secretaria informa que entrou em contato com o Centro de
Informações Estratégicas e Vigilância em Saúde do Estado de São Paulo
"para solicitar mais informações sobre os pacientes cearenses que
tiveram sintomas da síndrome de Haff a esclarecer após comprarem peixe
em Fortaleza e consumi-lo em São Paulo".
Desde sua internação, no dia 6 de agosto, Karyne e Handerson realizaram
exames até a última semana de setembro para acompanhar o quadro da
doença, que já é de melhora.
As filhas do casal, de 6 e 4 anos de idade, também consumiram o peixe, mas não apresentaram quaisquer sintomas.
"Fiquei totalmente traumatizada pra comer peixe, não consigo nem ver
gente comendo. Mas acho que é uma questão de tempo, vai passar. Quando
eu voltar pra Fortaleza, vou querer comer camarão", diz a advogada.
Nosso colunista discute o papel desse hormônio no tratamento do diabetes tipo 2 e um dos principais avanços nessa seara
Por
Dr. Carlos Eduardo Barra Couri
As doses de insulina ajudam o corpo a processar a glicose vinda dos alimenos (Foto: Deborah Maxx/SAÚDE é Vital)
Como você já deve ter lido neste espaço, o diabetes tipo 2
é uma doença crônica cujo tratamento é usualmente feito com
medicamentos de uso oral e mudanças no estilo de vida (alimentação
saudável, exercícios regulares…). O ponto que muitos se esquecem é que
falamos de um problema de saúde progressivo, ou seja, com o passar do
tempo o pâncreas vai perdendo sua capacidade de produzir insulina,
o hormônio que permite à glicose virar combustível para as células. Daí
se torna necessária a utilização de mais medicamentos a fim de
controlar o açúcar no sangue… Até um momento em que é preciso repor a
tal da insulina.
Apesar de sua enorme importância, as injeções desse santo hormônio
ainda suscitam vários mitos e preocupações. Alguns pacientes diabéticos
precisam, de fato, recorrer a duas, três, quatro aplicações ao dia para
atingir níveis adequados de glicose. E, em geral, esse processo é
acompanhado de muitas picadinhas nos dedos que permitem acompanhar, por meio do glicosímetro, como andam as taxas de açúcar no sangue.
Pois bem, em 2018 tivemos um enorme avanço na insulinização voltada ao diabetes tipo 2. Houve o lançamento de uma insulina sintética de longa duração misturada com outro hormônio sintético, o GLP-1,
na mesma caneta de aplicação. O GLP-1 é uma substância naturalmente
produzida no corpo humano pelo intestino e tem várias ações: ajuda a
regular a oferta de glicose ao longo dia, inclusive durante as
refeições, reduz o risco de hipoglicemia, modula o apetite e o peso…
A indústria farmacêutica já fabrica há alguns anos moléculas que imitam o GLP-1 orgânico
(é a classe de medicamentos injetáveis batizada de análogos de GLP-1). A
grande sacada agora, dos laboratórios Novo Nordisk e Sanofi, foi fazer a
união, dentro de uma mesma caneta de aplicação, da insulina e desse
outro hormônio. Com isso, o paciente precisa apenas aplicar o remédio e
medir a glicose na ponta do dedo uma única vez ao dia. Menos medições de
glicemia, menos picadas de insulina.
Os resultados dos estudos com as soluções de ambas as companhias
mostram que os pacientes conseguem atingir ótimo controle do diabetes,
com melhor qualidade de vida e menor risco de hipoglicemias
e ganho de peso. No geral, usa-se uma dose de insulina bem inferior à
dos tratamentos disponíveis até então. Em poucas palavras, a medicina
está aperfeiçoando ferramentas para domar o diabetes tipo 2 com mais
conforto e bem-estar.
No século 21, já não faz mais sentido temer a insulinização. Em pesquisa recente que conduzimos junto a SAÚDE e a área de Inteligência de Mercado do Grupo Abril, observamos que 24% dos diabéticos tinham como uma de suas principais preocupações o medo da insulina.
Precisamos conscientizar as pessoas da importância desse hormônio
quando indicado pelo médico. A insulina pode fazer toda a diferença na
qualidade e na expectativa de vida dos indivíduos com diabetes.
Essas
formações dolorosas incomodam muita gente. E podem exigir uma visita ao
dentista para tratar do jeito certo e verificar se não há algo mais
grave
Por
Dr. Fábio Luiz Coracin, cirurgião-dentista*
A maioria das aftas aparece na parte
interna da boca, na língua ou na porção interna dos lábios (Ilustração:
Fido Nesti/SAÚDE é Vital)
Aftas
são lesões provocadas por um processo inflamatório, geralmente em
formato oval e com coloração branca ou amarela. Apesar de não
representarem algo de maior gravidade, são uma das principais causas de
desconforto e de queixas relacionadas a problemas na boca.
A maioria das aftas aparece na parte interna da boca, na língua ou na
porção interna dos lábios. Aquelas que surgem em locais com maior
contato com os alimentos podem demorar mais para desaparecer, mas, em
geral, essas lesões somem entre uma e duas semanas.
As aftas mais comuns podem ser pequenas
ou grandes — e há também aquelas formadas pelo agrupamento de diversas e
diminutas lesões. As formações maiores tendem a apresentar um tempo de
cura maior, ultrapassando seis semanas. Elas ainda podem estar
associadas a linfonodos, as populares ínguas, no pescoço, o que também
representa uma causa de mal-estar.
O surgimento do problema ainda não é totalmente esclarecido pela
ciência. Acredita-se que ele esteja ligado a alterações gerais de saúde,
como queda da imunidade, estresse, disfunções hormonais, alergias a alimentos, deficiências de vitaminas e minerais e mesmo refluxo gastroesofágico. Comidas e bebidas ácidas, tabagismo
e o uso de alguns medicamentos também são associados às aftas, assim
como o uso de prótese bucal, que, quando mal colocada, provoca feridas e
aumenta o risco do incômodo.
É sinal de perigo?
Isoladamente, as aftas em si não representam uma ameaça à saúde. Mas
devemos ter em mente que elas podem ser um sinal de uma doença
sistêmica. Por isso, vale prestar atenção se são frequentes ou
apresentam um tamanho muito grande.
Quando as lesões demoram mais de três semanas para cicatrizar, apresentam indícios de infecção e/ou aparecem junto a febre, cansaço
e perda de apetite, é recomendável procurar um cirurgião-dentista para
que a boca seja examinada e se faça um diagnóstico correto.
Aliás, é bom que se diga que nem sempre a lesão é mesmo uma afta. Não
se deve confundir esse tipo de problema com as feridas típicas do herpes
labial, por exemplo. Uma das diferenças entre os dois é o local onde
aparecem: as aftas surgem na parte interna da boca, enquanto o herpes se
manifesta ao redor dela. A coloração também é diferente, assim como o
incômodo no local.
Enquanto as aftas não são contagiosas, o
herpes, causado por um vírus, é altamente transmissível. Por isso, no
período em que as bolhas ao redor da boca dão as caras, a recomendação é
não compartilhar qualquer produto que entre em contato com a região
infectada.
Outra doença que não deve ser confundida com a afta é a candidíase,
popularmente chamada de sapinho. Mas essa tem uma característica bem
diferente: provocada por um fungo, apresenta uma camada branca na mucosa
bucal, não pequenas úlceras brancas ou amareladas.
De qualquer forma, independentemente do
tipo de lesão, é imprescindível contar com o olhar do dentista. As
visitas periódicas garantem diagnóstico precoce e tratamento efetivo
contra quaisquer problemas odontológicos. Em muitos casos, uma consulta
de rotina detecta pontos de atenção antes que eles se tornem
enfermidades mais graves.
Tem tratamento?
Não há um remédio ou terapia específica para eliminar as aftas. Na
maioria das vezes — e se for confirmado que se trata de afta mesmo —,
elas não necessitam de tratamento. Nos casos de múltiplas manifestações,
que duram meses, ou quando as dores são intensas, o dentista pode
avaliar o uso de pomadas analgésicas e o bochecho com enxaguante bucal
antisséptico a fim de amenizar o desconforto.
Cabe destacar que todos os produtos
utilizados devem ser recomendados e prescritos por um profissional. Ele
também dará orientações para o dia a dia, como evitar o consumo de
alimentos muito ácidos ou salgados, que, em contato com as feridas,
ampliam a dor e a irritação.
* Dr. Fábio Luiz Coracin é cirurgião-dentista e membro da Câmara
Técnica de Patologia Oral e Maxilo Facial do Conselho Regional de
Odontologia de São Paulo (CROSP)
Cresce o uso de células retiradas dos
próprios pacientes para tratar doenças como artrose, lesões articulares,
câncer e incontinência urinária
EXERCÍCIO Lucas recuperou uma lesão no joelho com tratamento feito a partir de suas células (Crédito: Thiago Bernardes / FramePhoto)
Cilene Pereira
O estudante Lucas Daniel Silveira Santos, 30 anos, sempre foi do tipo
atlético. Jogador de basquete desde os onze anos, já passou pelas
categorias de base no Esperia e no Paulistano, dois tradicionais clubes
paulistanos. Em fevereiro, sofreu uma lesão no joelho durante um jogo e
teve de abandonar as quadras por causa das dores. Semanas depois, estava
em um protocolo de tratamento estabelecido no Hospital Albert Einstein,
em São Paulo, para se recompor do machucado usando como remédio suas
próprias células. Hoje, com ajuda de fisioterapia, ganhou confiança para
andar novamente, não sente mais dor e está pronto para voltar o jogo.
“Estarei nas quadras no próximo ano”, conta.
O tratamento ao qual Lucas foi submetido é um dos exemplos de um
caminho seguido pela medicina que visa achar a cura dentro dos próprios
recursos do organismo. Chama-se terapia celular. Em seu caso, foram
extraídos condrócitos (células produtoras de colágeno), cultivados em
laboratório e novamente injetados em seu joelho. Dessa forma, tornam-se
peças de reposição para substituir as que estão lesadas, sem funcionar
ou funcionando precariamente. “Os resultados são bem animadores”, afirma
o ortopedista Moisés Cohen, do Albert Einstein.
Outros meios utilizam células-tronco adultas (capazes de se
transformar em células de vários tecidos) extraídas do paciente ou
retiradas de tecidos doados por outras pessoas. O objetivo é cultivar as
células-tronco em laboratório e estimulá-las a se especializarem nas
células desejadas. Por exemplo, em células sanguíneas, ósseas ou
musculares. No Grupo de Joelho do Serviço de Ortopedia e Traumatologia
do Hospital Universitário Cajuru, no Paraná, os médicos estão usando
células-tronco do cordão umbilical doadas como matéria-prima do
tratamento para artrose no joelho ou perda da cartilagem da articulação.
“Após análise em laboratório e multiplicação das células em
laboratório, elas são implantadas na lesão da cartilagem do joelho,
promovendo seu reparo”, explica o ortopedista Fabiano Kupcizik, chefe do
serviço.
PROMISSORO ortopedista Cohen acredita no potencial dos novos métodos (Crédito:Thiago Bernardes / FramePhoto)
Células-tronco também começam a ser aproveitadas em experimentos para
amenizar a dor crônica – são implantadas em ossos ou músculos
lesionados – e, mais recentemente, para controlar a incontinência
urinária por esforço em mulheres. Um estudo pioneiro no Brasil está
sendo conduzido no Hospital Albert Einstein com esse objetivo. A
incontinência por esforço é a perda de urina que ocorre ao tossir,
espirrar, caminhar, correr ou pular. É o tipo mais comum de
incontinência – sua incidência varia de 15% a 35%, especialmente na
faixa etária entre 45 e 65 anos – e provoca um importante impacto social
e emocional na vida das pacientes.
Realizado em conjunto com especialistas da Universidade Federal de
São Paulo e do Laboratório Stemcorp, especializado em célula-tronco, e
iniciado há cinco meses, o tratamento foi aplicado até agora em dez
mulheres. As células-tronco são extraídas da medula óssea das
participantes. Cultivadas em laboratório, são posteriormente injetadas
na uretra. A ideia é que a reintrodução das células-tronco, agora em
número muito maior, contribua para a restauração de músculos, nervos e
vasos, estruturas que podem estar danificadas principalmente em razão de
partos vaginais ou lesões no assoalho pélvico. As primeiras observações
indicam que está dando certo. “A primeira paciente não está mais
perdendo urina”, afirma o ginecologista Rodrigo Castro, do Hospital
Albert Einstein. REPOSIÇÃO DE PEÇAS
O estudo dos efeitos da terapia celular avança no tratamento de diversas enfermidades. Entre elas:
ORTOPEDIA
Condrócitos (células produtoras de colágeno) ou células-tronco
(passíveis de serem transformadas em diversos tecidos) extraídas dos
pacientes são multiplicadas em laboratório. Depois, são novamente
injetadas para tratar lesões em articulações GINECOLOGIA
Células-tronco são retiradas de pequena amostra de músculo da coxa da
paciente e cultivadas em laboratório. Injetadas na região do assoalho
pélvico, podem reduzir episódios de incontinência urinária ONCOLOGIA
Melanoma (tipo mais agressivo de tumor de pele)Linfócitos de pacientes
com a doença são colocados, em laboratório, em contato com tecido
tumoral. Dessa forma, ficam estimulados a identificar e atacar o tumor
com maior eficiência quando reinjetados
Leucemia Linfóide Aguda e alguns tipos de linfoma
Linfócitos T são extraídos do paciente e alterados geneticamente para
reconhecerem e destruírem as células tumorais assim que forem
reintroduzidos NEFROLOGIA
Está em montagem no Hospital Albert Einstein estudo sobre a eficácia de células-tronco na recuperação de rins
Americano torna-se a primeira pessoa a andar sozinha depois de ficar paraplégico por causa de lesão medular
CAMINHADA
Jered precisou de asssistência do andador, mas na esteira deu passos sozinho (Crédito: Teresa Crawford)
Cilene Pereira
Foram 331 passos, 102 metros percorridos e 16 minutos andando sem e
com ajuda, mas andando. Foi assim que o americano Jered Chinnock, 29
anos, marcou um fato histórico em sua trajetória pessoal e na medicina.
Há cinco anos, Jered ficou paraplégico depois de um acidente. Na última
semana, sua história foi destaque da revista científica Nature, uma das
mais respeitadas do mundo, porque ele se tornou a primeira pessoa do
mundo a caminhar de forma independente após sofrer a paralisia completa
dos membros inferiores em decorrência de uma lesão de medula.
Especialistas da Clínica Mayo (EUA) foram os responsáveis pelo feito
de Jered. Há anos a instituição pesquisa maneiras de devolver a
mobilidade a paraplégicos. Jered conferiu a eles sua primeira grande
vitória. O trabalho consistiu em preparação muscular e a criação de um
eletrodo acionado a partir da simples intenção de Jered de caminhar.
A função do eletrodo é estimular a passagem dos sinais elétricos
entre os circuitos neuronais que tiveram essa transmissão interrompida
por causa da lesão. Ele foi implantado na medula espinhal – por onde
passam os feixes nervosos que fazem a ligação do cérebro com o resto do
corpo -, logo abaixo da lesão sofrida pelo americano. O artefato está
sujeito a um controle preciso para que a intensidade, a frequência e os
nervos acionados respondam à necessidade que a execução do movimento
exige. O desempenho de Jered mostrou que apesar da lesão os neurônios
respondem se estimulados do jeito certo. “A rede de células nervosas
ainda pode funcionar depois da paralisia”, afirmou Kendall Lee,
envolvido no projeto. Os cientistas querem agora entender precisamente o
que aconteceu. “Saber como ele conseguiu e identificar pacientes que se
beneficiarão é o próximo desafio”, disse Kristin Zhao, outro
participante do projeto.
“A rede de células nervosas ainda pode funcionar mesmo depois da paralisia” Kendall Lee, pesquisador, Clínica Mayo